Fecho os olhos, começo a escrever. Os dedos já conhecem as letras. Fecho os olhos abro o coração. Nas palavras escrevo a vontade de ir mais além, de querer mais, de sentir mais. A dor já não é o caminho que levo em mim, e tudo o que passei o vento levou e a água varreu. Só ficou a lição que se viajamos á chuva, molhamo-nos e é difícil secar depois. Mas sentir a agua lentamente bater-nos no rosto, é como brotar novas folhas, novas vontades. Mesmo que no fim só sobre uma valente constipação, quero viajar á chuva, sentir a agua envolver o meu peito e o meu coração aquecer-lhe os átomos. Toda a fragilidade que sinto, já não tenho medo de mostrar, de partilhar, de transparecer, ele pertence-me, como o ar pertence á minha pele, como a água ao mar. O medo já não é maior que eu, sinto-o na pele. Olho-o nos olhos. Cheiro-o. Aperto-lhe a mão e caminho através dele. Tudo o que me pertence, a minha mão agarra, o que não é meu, deixo ir. Mesmo que o ame, porque amar é deixar ir, quando não nos pertence.
Nevoeiro
Ficamos quietos sentimos o denso envolver ficamos quietos a vê-lo querer. cobre-nos as pernas não nos deixa caminhar cobre-nos as mãos ficamos sem puder gatinhar cobre-nos a boca esquecemo-nos de falar cobre-nos os olhos já há muito que não víamos os ouvidos esses, estavam esquecidos com o tempo a serpentear a passar, a morrer…. e nós a fechar os olhos, que já não viam, mesmo abertos! Envoltos num cobrir de ombros cheios de nada impregnados de ausência de movimentos que nos fazem estrada, quando devíamos ser caminhantes.
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