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Dedos

Começo a escrever hoje. Sinto a dormência nos dedos, própria de quem esteve paralisado anos. Sinto que toda a minha alma quer explodir cá para fora, mas os dedos, os dedos não sabem ouvir. E vaio escrevendo lentamente, muito lentamente tudo o que a alma ferida arrasta para fora dela. A dor, essa, sorridente joga-se contra as paredes do meu corpo como um tornado se passeia pela imensidão de uma planície, sem oposição, livre, solto. Vou escrevendo as palavras que ela me dita, vou sentindo o vento bater-me de dentro para fora, mas onde estou? Sou palavras ou momentos, sou dor ou sentimentos? Afinal onde estou? Sou um estranho caso de coerência incoerente. Passo a vida a dizer que quero fugir da dor e depois não vivo sem ela, e ela persegue-me, mata-me e devora-me. E eu nasço de novo. E ela mata-me de novo. Sou incapaz de amar. Amei tanto uma pessoa que todo o amor que possa nascer em mim é agora uma escassez, um fruto mirrado do que já fiz nascer. Perdoa-me se morri nos teus braços, apena...

Quando

Quando eu morrer, Não me enviem flores Enviem-me cartas Que as flores murcham Mas as cartas perduram. Quando eu morrer, Não me chorem Riam, porque fui feliz. Não quero lágrimas no meu caixão O meu corpo vai viver lá, mas eu não. Vou ser livre, voar sem asas Pelo meio da ilusão. Quando eu morrer Não penso mais na vida Como agora vivo, Não penso mais na morte.

Espalho o mar pelos meus pés Mergulho de uma só vez Que o mundo não pára de girar. Tudo morre na ponta do pincel Que torneia as formas Na fragilidade do papel Cada traço flamejante Derrete um pouco de tempo Enquanto nasce o coração Enquanto morre a embalagem E tudo o que fica é uma miragem Memoria de um lugar chamado gente. Tudo nasce e morre na dança de um vulto Que se espalha pelo mundo Em cor e sabor Em cheiro e toque Um som estridente que nasce do nada Só para se tornar gente. Um passo, um só passo E a carne é pó, Um passo, um só passo E o mundo sopra.

Felicidade

Se a felicidade for só um lugar, Quero lá estar, sonhar, voar. E se ficar bem alto, E tiver medo de cair Agarro-me ao medo E continuo, continuo a subir Deixo para trás a simples desejo Para que ele me retorne embrulhado Num papel refinado De uma flor a desabrochar num beijo. Se um dia eu parar de a procurar, Lembrem-me por favor do mar Que vai e volta, mas continua sempre a amar Para a sua eterna noiva, a areia, que o faz acalmar. Lembrem-me que a felicidade se perde na ponta de um dedo E se ganha quando deixamos de viver pelo medo…

Adeus, minha Querida, adeus.

Ensinaste-me a andar ensinaste-me a sonhar levaste-me os medos e descobriste os meus segredos eras o sol e lua a tua alma pura. Eras um gota doce num mar salgado onde quer que fosse sabia que por ti estava guardado. Lutaste até ao fim, e agora em mim viverás no meu coração que cheio de emoção não chora por ti, mas antes sorri, porque o ensinaste a amar sem mais esperar. Adeus minha querida, adeus.

Falar o silêncio

A tristeza que corre nas minhas veias um pedaço de vidro que me corta os pulmões me envolve o coração como uma almofada de cardos que se contraem contra a minha pele sinto que a vida que um dia ousei dizer minha se esvai perante tudo o que não sei controlar mexo as pernas sacudo os braços mas tudo isso parece em vão eles só se mexem. eles só movimentam uma ordem que o meu pensar lhes indica. a vontade de os mexer perante uma vida não é mais que talvez um pedaço de metal corroído corroído pela ferrugem da dor saturado de água que os olhos não vertem. É talvez esse o momento da minha exaustão o momento que o corpo fica em pé E a alma cai no chão inerte. Não sei. Já nem penso Só para poder fingir que não sinto, mas finjo tão mal. Tão mal. Se um dia me encontrarem no chão, não me levantem pois encontrei paz. O corpo parou de resistir e deixou-se. Simplesmente deixou-se ficar. E se um dia o coração se desafogar, olhem me nos olhos e não me deixem amar. Amar mata, ...

Brilhos

Somos donos de nada. Temos o mundo, Brincamos com a espada, Um desejo absurdo. Animais que olham o brilho Duma pedra translúcida Acendem o rastilho De forma iludida. Pensam ganhar imortalidade Mas não ganham sequer saudade.