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Aqui

É este o meu mundo Preso nas palavras Como que por molas Escrito nas entrelinhas É aqui que a minha alma descansa É aqui que o meu ser avança No meio da minha transparência

Gota

Ás vezes, sentimos a alma cair Escorregar pelo corpo carregada. Como uma gota que se deixa ir Pelo caule de uma flor de cor avivada… Sentimos o peso da gravidade Esquecemos a cor que em nós faz espelho Fazemos do corpo um objecto velho, Quando na mais pura verdade Somos as únicas gotas que podem voar, As únicas que podem reflectir o mundo Dar-lhe um tom diferente, Não mudo, mas estridente! Esquecer as leis do medo, Fazer dele um segredo! Um segredo que já ninguém quer saber Para que o mundo seja um lugar de puro viver…

Palavras

Somos loucura em terra de paz No amor, na guerra, Somos som que se desfaz, Fragilidade que o tempo encerra. Fazemos das armas mais mortíferas Pequenas feras com espaços Que se desfazem nos olhos E se espalham pelos passos Dardos lançados sem remorsos. Águas soltas, Sem pensamento. Palavras revoltas, Partem o momento.

Nevoeiro

Imagem
Ficamos quietos sentimos o denso envolver ficamos quietos a vê-lo querer. cobre-nos as pernas não nos deixa caminhar cobre-nos as mãos ficamos sem puder gatinhar cobre-nos a boca esquecemo-nos de falar cobre-nos os olhos já há muito que não víamos os ouvidos esses, estavam esquecidos com o tempo a serpentear a passar, a morrer…. e nós a fechar os olhos, que já não viam, mesmo abertos! Envoltos num cobrir de ombros cheios de nada impregnados de ausência de movimentos que nos fazem estrada, quando devíamos ser caminhantes.

Se eu pudesse...

Se eu pudesse era poesia O meu corpo um suave poema os meus membros versos, Versos de uma alma escrita Por entre linhas sem rima.

Vida

Solta-se o tempo Como uma pena ao vento Soltam-se as palavras Como pedaços de madeira na água Tudo passa na leveza de um passo Sempre sentido, Nem sempre (com) sentido, Deixamos em cada expressão de tempo Uma fracção de gente Que fica registada com rapidez de uma monção Que aparece e desaparece num ápice Tão rápida que perdemos a noção De tudo o que fizemos, o que se disse… Deixamos para trás uma sombra Um caminho lavrado de penumbra Indefinido, perene. Por mais que tentemos subir a corrente A alma não é gente suficiente Para voltar atrás, Tudo muda, tudo se transforma Num incessante curso de vida, Que se pára, morre.

Outra vida

Chego a casa pouso um maço de poemas sobre a mesa velha de um quarto cansado, poemas escritos por entre as trilhas de um dia exausto, exaustos. Largo-os, agarro um pedaço de pão e vou a janela, adoro sentir o frio encher-me os ossos e lembrar-me que estou vivo. A noite fria continua a dizer-me versos que teimo em não escrever, não é o momento, ainda não. Ás vezes gostava de compreender as mudanças tão rápidas de sentimentos, de momentos e intenções, por isso pouso os poemas, não os quero ler ainda, são, são, não sei o que são. Talvez um dia perceba mais deles do que o que eles percebem de mim agora. Sinto-os cansados, cansados de me percorrerem o corpo e não acharem mais que meia dúzia de recordações, o sangue a correr nas veias e uma inquietude perante mim mesmo. Estão cansados, dizem-me todos os dias que os acordo e os faço sair a rua e gritar quem sou, eles tentam e voltam para casa, exaustos. Perdem-se sempre pelo caminho por entre as folhas perigosas que os agarram. Ainda gritam e...